Os miúdos do hóquei têm um objectivo muito simples na cabeça: chegar a sénior. Esse percurso tem características, contextos, momentos, necessidades de adaptação e muitos agentes diferentes envolvidos no processo. E quanto aos treinadores? Será que, de miúdos para graúdos, o treinador encontra assim tantas diferenças e tem a necessidade de operar uma transformação na sua forma de trabalhar?
Decidi falar com o Rui Henriques, selecionador regional de SUB-15 da APL e treinador dos Seniores do Sport Alenquer e Benfica. Depois de muitos anos ligado aos escalões de formação, o Rui foi desafiado a treinar o Alenquer, equipa que luta pela subida na 2ª Divisão Sul. O desafio começou há poucos meses e o Rui contou-nos como está a ser esta experiência que é, no mínimo, paradoxal.
Pedro Gonçalves
Coordenador do Projeto da AP Lisboa, “Dar voz aos Treinadores”.
“ Miúdos e Graúdos: o choque inicial…”
Começo com uma simples citação: “A equipa é a base do sucesso individual, inclusivamente do treinador.” (Scase, 2001, in Birkinshaw e Crainer, 2005).
Em resumo: o suposto choque inicial é relativizado porque, sejam miúdos ou graúdos, todos procuram o mesmo: o sucesso individual. Todos têm as suas expectativas que os diferencia enquanto indivíduos mas, lá no fundo, todos querem o mesmo: ser bem sucedidos.
Felizmente que, nos últimos tempos, quer enquanto Selecionador Distrital da Associação de Patinagem de Lisboa , quer nas equipas de formação pelas quais passei e, agora, enquanto treinador de equipa de Seniores do Sport Alenquer e Benfica, tenho tido a sorte de poder trabalhar com atletas de elevada qualidade.
Tenho sido permanentemente posto à prova no que toca à gestão de expectativas individuais e, acima de tudo, independentemente da idade, o principal desafio tem sido canalizar o sucesso individual para o objectivo coletivo. A idade dos atletas é um factor que nos deve condicionar essencialmente ao nível da comunicação mas, no fim do dia, só interessa uma coisa: a nossa capacidade de liderança!
Cada grupo de trabalho exige necessidades específicas que têm de ser colmatadas. Nas equipas de formação há muitas necessidades técnicas que apelam ao trabalho da tomada de decisão individual. Já nos seniores a questão é outra: a existência de um estímulo para competir depois de um dia de trabalho. A minha maior preocupação tem sido ajudar na recuperação dos atletas para os treinos e jogos. Os mais novos também têm desgaste que é originado pelas suas actividades diárias, mas apresentam-se para treinos ou jogos a precisar de uma preparação completamente distinta daquela que se aplica aos mais velhos.
O maior choque da minha chegada aos seniores foi esse: perceber que trabalho com “não profissionais”. Alguns deles chegam ao treino com apenas duas refeições devido à exigência da sua actividade profissional. Exigir destes atletas o mesmo que se exige de outros que descansam, alimentam-se e preparam-se devidamente para treinar foi, sem dúvida, o maior desafio que encontrei. Não é que os mais novos tenham uma grande sensibilidade para alguns destes cuidados, mas têm uma preparação natural e uma disponibilidade para cumprir regras completamente diferente.
A nível psicológico/mental, todos os atletas têm necessidades individuais que temos de colmatar enquanto líderes. Temos de saber ajustar a nossa comunicação a todos eles, visto que qualquer um vai, a certo ponto, querer a nossa atenção. É um erro acharmos, seja numa seleção de miúdos que são os melhores da sua geração ou numa boa equipa de seniores, que só porque estamos na era da “robotização/digitalização” só nos temos de preocupar com questões tácticas.
Voltando ao conceito de “choque” com que fui confrontado nesta crónica, eu não acho, sinceramente, que haja um choque. Isto porque há sempre um denominador comum que liga todos os agentes: a equipa. O único choque foi mesmo entrar na realidade que um jogador sénior não profissional enfrenta hoje em dia e que me leva para um paradoxo: passo mais tempo a ajudar um sénior com questões básicas da sua vida do que um miúdo da seleção. Dedico mais tempo à gestão de expectativas individuais de um miúdo da seleção do que às de um sénior.
Entre miúdos e graúdos também existem muitos pontos comuns. O primeiro é óbvio: todos eles fazem parte de uma equipa. Mumford e Gergley (2005) referem mesmo que “treinar consiste, acima de tudo, em influenciar e aproximar as pessoas dentro de um clima de relações interpessoais.” Montiel (1997) reforça a ideia referindo que “o treinador é um gestor de recursos humanos, não podendo por isso desvalorizar as relações humanas e o ambiente em que trabalha com o seu grupo de jogadores.” Tenho estas duas citações sempre bem presentes quando estou a trabalhar as minhas equipas, seja qual for a faixa etária.
Abordando mais especificamente a questão do ambiente de trabalho, existe outra grande diferença: na Seleção Distrital de Lisboa falamos de trabalho periódico, intervalado e de uma prova de curta duração (Inter-Regiões) mas, na equipa sénior, falamos de trabalho semanal e diário e de uma prova de longa duração.
Nos últimos anos “formatei-me” para competir no imediato. Preparei o processo de trabalho para que fosse rápido, simples e eficaz. Agora que cheguei aos seniores tive de ganhar consciência de que o processo é bem mais duradouro e de que estamos a correr uma autêntica maratona.
Poderia considerar esta diferença um choque mas, na verdade, é apenas um ajuste à realidade e ao ambiente em que nos inserimos.
Outra grande diferença é que, em provas como o Inter-regiões, só podemos ter algum estudo prévio das outras seleções quando começa a competição. Não temos acesso ao registos das seleções que nos permitam preparar os nossos jogos. No Campeonato Nacional da 2ªDivisão, em que estou agora inserido, o conhecimento das equipas com quem jogamos é muito mais profundo e conseguimos preparar os jogos com maior antecedência.
Voltando a entrar na parte comportamental e das relações humanas, o facto de a minha formação académica ser na área dos recursos humanos fez com que eu tivesse um interesse natural em estudar as relações interpessoais que se criam, quer em ambiente profissional, quer em ambiente desportivo. É gratificante perceber que, independentemente das idades, todos eles acabam por ter necessidades similares a este nível.
Todos são diferentes e todos são moldados por factores técnicos, sociais e pessoais diferentes. Mas todos necessitam de feedbacks, de gestão de expectativas e de acompanhamento personalizado. Mas antes de tudo isso, é preciso perceber de onde vem cada atleta. Fazer o diagnóstico correcto para que o treinador se possa adaptar a cada indivíduo. Conhecer os seus pontos fortes e as suas limitações para que se possa, de forma consciente, potenciar o atleta e o grupo de trabalho.
É também preciso pegar nas suas ambições pessoais. Um miúdo de 14 anos quer sempre chegar, um dia, à seleção nacional. Um atleta sénior quer sempre chegar a uma divisão maior do que aquela em que se encontra.
A equipa sénior que treino actualmente apresenta jogadores que têm potencial para virem a jogar numa equipa que esteja frequentemente na 1ª Divisão. No entanto, gerir todas estas ambições tendo em conta que, no final, existe um objetivo comum (equipa) tem sido garantidamente o maior desafio. Tudo se facilita quando treino grupos com qualidade, que é o caso destes. Por esse motivo, ter passado, de repente, do treino de miúdos para o treino de graúdos, não foi um “choque”.
No que toca aos seniores, para reduzir a probabilidade de haver esse “choque”, temos de ter consciência da evolução que as competições têm tido. Temos de estar rodeados da estrutura certa, porque trabalhar a parte técnico-táctica, só por si, não chega. Neste caso em específico, a 2ª Divisão é um campeonato extramente equilibrado, em que todas as semanas há “jogos de tripla”. Por isso mesmo, as questões logísticas, clínicas ou nutricionais, por exemplo, colocam-nos sempre em vantagem na competição se forem bem abordadas.
Ter esse acompanhamento é, provavelmente, o maior desafio para quem tem de comandar jogadores seniores não profissionais hoje em dia. Ganhei por eles a maior admiração e o maior respeito porque, no fundo, apesar de terem as suas ambições individuais, acabam por demonstrar que se esforçam para corresponder a um “amor á causa”.
Resta-me agradecer a oportunidade de poder partilhar convosco a minha opinião sobre o tema proposto. Quero ainda felicitar a Associação de Patinagem de Lisboa pela iniciativa e o Pedro Gonçalves por ter tido a ousadia de me ter convidado.
Um abraço,
Rui Henriques
