Na segunda crónica desta rubrica convidei o José Luís Agulhas para nos falar do treino específico de guarda-redes de hóquei em patins. Mais do que abordar a questão técnica, pedi-lhe para falar da mudança de mentalidades que é necessária operar na forma como se olha para o treino desta posição tão específica. Eu sempre ouvi dizer que “o guarda-redes está lá para levar com elas”.
Desta vez, pedi ao Zé para nos mostrar que “o guarda-redes já não é só para levar com elas”.
Referência consensual no treino específico de GR, tem obra feita e a imagem de um treinador extremamente dedicado à causa que o move há 40 anos. É, actualmente, coordenador do treino específico de guarda-redes na AJ Salesiana.
Pedro Gonçalves
Coordenador do Projeto da AP Lisboa, “Dar voz aos Treinadores”.
O guarda redes já não é só para levar com elas
Aproveito desde já para agradecer esta oportunidade para poder falar, mais uma vez, de um elemento muitas vezes esquecido e sobre o seu treino desportivo: o guarda-redes.
Apesar de ultimamente o treino do guarda-redes ser mais falado, continua a ser demasiado
secundário para a importância que este tem dentro de uma equipa, sendo visível a aposta que os clubes mais competitivos hoje em dia fazem, tentando adquirir atletas de qualidade para esta posição.
O guarda-redes tem cada vez mais uma posição preponderante no resultado desportivo da equipa, pois umas grandes percentagens de jogos resolvem-se com lances de bola parada (livre direto e/ou penáltis), e com as muitas transições ofensivas que proporcionam inúmeros lances de desvantagem numérica defensiva e em que o guarda-redes assume o protagonismo principal.
Ouve-se frequentemente que “se o guarda-redes esta bem a equipa está bem.”
O treino desportivo tem tido uma evolução exponencial, onde vários fatores contribuem para a evolução do atleta. O guarda-redes, nomeadamente na nossa modalidade, não é exceção, mas para isso tem que existir uma maior proximidade com o seu treino específico.
Como é do conhecimento geral nós sempre fomos uma das poucas, para não dizer a única, modalidades que pouco ou nada se interessou por este treino específico. É frequente ouvirmos a que o problema é a falta de verba ou de disponibilidade.
Mas desde há algum tempo para cá as coisas têm vindo a alterar-se e com resultados práticos. É, sem dúvida, uma posição demasiado importante e que merece um cuidado específico.
Temos depois a forma de a trabalhar que pode e deve variar, tendo em conta a formação e a competição. Tal como em qualquer modalidade a formação base é essencial e a ferramenta que dá garantias para que no futuro esse atleta possa vingar.
Falando do atleta de formação (6-10 anos), há uns tempos estes eram escolhidos pela pouca patinagem que tinham, pela dificuldade na aprendizagem da mesma ou por ser o “gordinho e /ou grande”. Estas características em nada servem neste momento. O atleta que se quer hoje em dia para GR tem que saber patinar, estar interessado nesta posição para que possa aprender e evoluir enquanto se divertir e estar fisicamente bem preparado (o treino especifico obriga a um grande dinamismo na execução dos exercicios). Hoje em dia procuramos guarda-redes dinâmicos e não estáticos.
A posição base do GR de hóquei em patins, se observarmos bem, é contranatura (posicionamento em constante flexão dos joelhos e uma posição dos braços diferente daquela que usamos no dia-a-dia) e, por si só, num atleta contrariado, difilcuta a aceitação do treino com base nos exercicios que devem e que têm que ser feitos. Nesta idade, mesmo motivados, há uma necessidade constante de aplicarmos ferramentas para não perder o atleta, ou seja, ensinar brincando, com exercicios lúdicos e jogos entre eles em que se aplica a técnica de patinagem de baliza.
Com o acompanhamento constante dos atletas vamos evoluindo e sendo mais exigentes nessas execuções. É aí que passamos a trabalhar um atleta de competição.
Construo esta abordagem com base em alguma literatura específica que tento acompanhar, assim como na experiência de terreno, em que temos de adaptar constantemente os nossos métodos de treino ao grupo que trabalhamos, avaliando, nomeadamente, o nível de maturidade do mesmo.
Falando da minha experiência pessoal e do facto de ter sido sempre esta a minha posição em diversas modalidades, tive a vontade de “investir” neste tipo de treino específico onde tento colmatar os obstáculos que sempre tive durante a minha aprendizagem enquanto atleta. Eu próprio posso testemunhar que enquanto treinador principal, e apesar de esporadicamente retificar o GR, sei que nunca era com a frequência necessária.
Sendo mais realista, tenho noção de que para que seja possível realizar este trabalho duma forma minimamente credível, existem alguns aspectos estruturais que são importantes. Os clubes têm de dar boas condições aos treinadores de guarda-redes para trabalharem. Não basta dizer que se tem treino específico de GR’s para depois ser feito um trabalho sem qualidade.
Atualmente tenho a felicidade de poder trabalhar num clube (AJSalesiana) em que me dão todo o apoio, quer ao nível logistico quer a nível humano, em que existe um grupo de treinadores que facilitam o meu trabalho, percebendo que tem de haver, em certos momentos, uma ligação direta entre o treinador principal e o treinador de GR, assim como a felicidade de ter um grupo de atletas de aproximadamente 25 GR’s, que vão desde o Bambi mais novo até ao atleta sénior mais velho. Todos eles estão sempre dispostos a trabalhar.
O meu treino incide sobre diversas áreas. As mais influentes são: treino físico, técnico, tático e psicológico.
No treino físico tento abordar algumas regiões anatómicas especificas tais como a região da cintura escapular (ombro e braço), a região lombar, a região do peitoral e outras regiões menos relevantes. O meu foco não vai tanto para os membros inferiores visto que os mesmos são trabalhados em qualquer exercício, devido à posição natural que o GR tem. Este treino físico deve ser adaptado consoante as necessidades do atleta que trabalhamos.
Não menos importante é o facto de este trabalho físico ter uma função de prevenção de algumas lesões através da compensação muscular. Existe também um grande foco na agilidade, na força e na flexibilidade. Serve também para educar o atleta para a necessidade de um bom aquecimento e de alongamentos no princípio e no fim do treino. O grande objectivo é dar rotinas de trabalho ao atleta.
No treino técnico são feitas abordagens aos seguintes elementos: o deslocamento lateral em oito rodas, o deslocamento frente-costas, o movimento das luvas na abordagem à bola e o manuseamento do setique quando em controlo da bola. Volto a referir que é sempre necessário adaptar o treino às necessidades e características do atleta. É um trabalho necessário, seja qual for o escalão etário do atleta.
No treino tático, que é cada vez mais importante, tento elaborar um treino integrado em que estou em campo juntamente com o restante grupo de trabalho. 90 % Das minhas intervenções são focadas nos GR’s enquando o treinador principal incide mais sobre os jogadores de campo. É aqui que começa a distinção e a necessidade de existência deste trabalho conjunto em que um treinador está focado na finalização e outro na oposição a essa finalização.
Mais uma vez reforço que, para que seja possível este treino tático, há uma necessidade de comunicação adequada entre treinadores. Neste tipo de treino alguns exercícios são pensados com o objectivo de melhoramento das ações dos GRs, nomeadamente em situações atrás da baliza e em sintonia com os colegas mais defensivos, procurando automatizar princípios nas proteções aos postes. Há também, por exemplo, as abordagens do GR e de um colega que é defesa às situações de contra-ataques sofridos em 2 contra 1.
O treino Psicológico é feito com a finalidade de tornar o GR um atleta MOTIVADO. Melhorar a capacidade de liderança, treinar a sua tomada de decisão e até o próprio aumento da visão periférica são, sem dúvida, alguns dos fatores mais importantes a explorar para complementar todo o trabalho técnico. É também nesta área que se estimula a vertente cognitiva do atleta.
E, na prática, como se trabalham todas estas áreas?
Este treino específico, na grande maioria das vezes, é feito por estações em que são determinados os objectivos de um circuito e da uma das fases desse circuito. Em cada uma dessas fases, escolhemos os exercícios adequados.
O treino específico do GR, no meu ponto de vista, consiste em automatizar ações e posicionamentos com base em situações práticas/reais de jogo. Desta forma, em grande parte dos circuitos que crio, faço repetições de alguns exercicios. Para mim, o aperfeiçoamento na execução do exercício é diretamente proporcional á sua repetição.
Este treino pode ser efetuado de diversas formas:
- criando um grupo de atletas por idade ou por nível de aprendizagem, num circuito que pode ser feito dentro ou fora da pista;
- Pegar nos GR’s de um determinado escalão e fazer este trabalho durante o aquecimento inicial da equipa ou mesmo fora da pista, minutos antes do início do treino.
Atualmente tento acompanhar os atletas dentro do horário pré-definido pelo clube. Desta forma, consigo que, principalmente na formação, em que os atletas são dependentes dos pais, façam este trabalho sem mexer muito com as suas rotinas. Evitamos também uma barreira que por vezes acontece quando determinamos um horário de treinos exclusivamente para GR’s, em que a adesão nunca é muita porque é MAIS UM TREINO a juntar à sua já preenchida agenda.
Em resumo: os GR’s fazem um treino específico fora de campo onde focamos mais o aspecto físico, técnico e psicológico. Complementamos, depois, com o treino tático dentro de campo no horário estabelecido para a equipa de cada GR. O que acontece na grande maioria das vezes é a retificação das abordagens durante os exercicios e principalmente durante o jogo formal, onde se trabalha também a comunicação com os colegas de equipa.
Só esta personalização do treino já é importante, pois o GR enquanto ATLETA acaba por ser valorizado e deixa de sentir-se um “apêndice”, muitas vezes esquecido junto à tabela ou mesmo no banco, fora da pista, a aguardar que se lembrem dele.
O trabalho acaba por ser feito sempre através da perspectiva do GR. Senão vejamos: quando uma bola vai ao poste, o jogador e de campo e o treinador pensam que é quase golo. Aquilo que eu quero é que os meus GR’s pensem que é “quase fora”, precisamente por acreditar que a probabilidade de ser golo ou não é de 50 %.
Tento também acompanhar esporadicamente os GR’s dos diversos escalões em alguns jogos para perceber se a sua atuação durante o momento competitivo é de acordo com a sua entrega no treino. Esta parte do meu trabalho é ainda mais desafiante, na medida em que a disponibilidade para acompanhar todos os GR’s que treino acaba sempre por ser muito reduzida.
Para terminar posso dizer que relativamente às alterações na forma de trabalhar os GR’s, tenho vindo a introduzir cada vez mais exercicios que trabalhamos nos escalões de competição nos escalões de formação(adaptando os níveis de intensidade e de carga), pois quanto mais cedo criarem automatismos para o futurom quanto melhor. O resultado tem sido positivo e nunca podemos avaliar este resultado sem ter em conta o nível de maturidade do atleta.
Agradeço a todos os que têm colaborado comigo na troca de ideias, quer treinadores de outras modalidades, quer na área do treino neuro-motor e mesmo na análise do jogo. Todas estas ferramentas juntas contribuem para melhorar a cada dia. Tão importante como um atleta motivado é existir um treinador motivado.
“o jogo é o reflexo do treino semanal…”
José Luís Agulhas treinador nível 3, treino específico de GR
